A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo

LIPOVETSKY, Gilles
Barueri: Manole, 2005

Filósofo francês, Gilles Lipovetsky (1944) não cirou o termo pós-modernidade, mas é um dos seus maiores estudiosos – embora atualmente prefira utilizar hipermodernidade. Em A era do vazio, de 1983, mostra as causas e os primeiros efeitos do fenômeno da pós-modernidade, sendo o principal deles o que o autor vai chamar de processo de personalização. Trata-se de uma valorização do indivíduo que fará inclusive diminuir a interação entre o Eu e o Outro. Em resumo, ele lista o enfraquecimento da sociedade, dos costumes do indivíduo contemporâneo da era do consumo de massa, a emergência de um modo de socialização e de individualização inédito, numa ruptura com o que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII como suas principais características.

A partir desse processo, Lipovetsky analisa diversos fenômenos decorrentes da personificação, em seis artigos. No prefácio, ele explica esse processo com mais detalhamentos. No primeiro artigo, A sedução não para, mostra como a sedução é a nova regente dos processos sociais, não só nas relações interpessoais. A indiferença pura, o segundo artigo, denota que o processo de personificação incentiva a indiferença na sociedade pós-moderna, a ponto de atingir a política. Com a metáfora do deserto, desde os espaços públicos até à mente humana, ele defende que o indivíduo cada vez mais foca em si mesmo e esvazia o social.

Em Narciso, ou a estratégia do vazio, aprofunda a descrição do processo de personificação, a partir da figura de Narciso. Mas não se trata do narcisismo no estrito sentido freudiano, mas sim de um neonarcisismo, de exaltação do eu e abdicação do social e político. No longo quarto artigo Modernismo e pós-modernismo, ele vai diferencia os dois movimentos, a dizer: enquanto o primeiro exalta a revolução e a diferenciação da vanguarda, o segundo vai, após o esgotamento da vanguarda, perder o caráter revolucionário e a ideia de ideal comum – o individual fala mais alto.

Nos dois últimos, discute a personificação no humor e na violência. Para ele, o humor invadiu diversas plataformas, não somente aquelas tradicionalmente ligadas ao riso. Chega aos títulos de jornais, à publicidade e à moda. É como se todos rissem de si mesmos, sem denegrir os outros. Quanto à violência, ele defende que esta está suavizada, devido à pacificação que a sociedade pós-moderna traz.

O texto é rápido – Lipovetsky troca de assunto e objeto a todo momento – o que torna difícil uma sintetização de sua, digamos, narrativa. No entanto, o embasamento teórico é o mesmo do início ao fim. Sem se aprofundar exatamente nas causas dos processos e mais em suas consequências e manifestações, teoricamente acaba repetitivo: tudo é o tal processo de personificação. Vale ler o pósfácio por completo para entender essa teoria e suas manifestações mais recentes.

Prefácio

XV Em seu prefácio, Lipovetsky cita alguns fenômenos do que ele vai chamar de processo de personalização. A dizer, o enfraquecimento da sociedade, dos costumes do indivíduo contemporâneo da era do consumo de massa, a emergência de um modo de socialização e de individualização inédito, numa ruptura com o que foi instituído a partir dos séculox XVII e XVIII. Esse fenômeno, ainda em processo, acaba por definir um novo modo de agir, uma nova lógica, que já não mais é o agir revolucionário, mas sim uma revolução permanente do cotidiano e do indivíduo. XVI Para ele, a arte e a psicanálise chegaram a antecipar esse processo na década de 1920.

XVI Trata-se de um tipo de decadência das regras uniformes do mundo político, produtivo, moral, escolar e protecionista, que dão lugar ao livre desenvolvimento da personalidade íntima.

XVII O ideal moderno de subordinação do indivíduo a regras racionais coletivas foi pulverizado, o processo de personalização promoveu e encarnou maciçamente um valor fundamental: o da realização pessoal, do respeito à singularidade subjetiva, da personalidade incomparável, quaisquer que sejam as novas formas de controle e de homogeneização realizadas simultaneamente

A revolução do consumo trouxe uma transformação do estilo de vida XVIII que levou a um desenvolvimento dos direitos e desejos do indivíduo. O direito à liberdade – teoricamente ilimitado, mas até então circunscrito à economia, à política, à cultura – ganha os costumes e o cotidiano.

Com isso, temos como algumas características do pós-modernismo:

  • individualismo hedonista e personalizado tornou-se legítimo e já não encontra oposição
  • a era da revolução, do escândalo, da esperança futurista, inseparável do modernismo, está acabada
  • XIX sentimento de repetição e estagnação
  • autonomia particular avança por si mesma
  • retração do tempo social e individual
  • não tem mais ídolos ou tabus
  • um vazio sem tragédia e sem apocalipse
  • apoteose do consumo

XX No consumismo da própria existência, da segunda fase da sociedade do consumismo, a atitude hot é substituída pela atitude cool, em que XXI ocorre uma coexistência suave das antinomias . Em resumo, uma valorização do narcisimo, que vai ser chamado por Lipovetsky de neonarcisismo. XXIII Trata-se de uma psicologização do social, do político, estamos longe da estética monadológica, o neonarcisismo é psicologia pop.

A produção e a revolução do moderno dão lugar à informação e à expressão do pós-moderno. XXIV Quanto mais a gente se expressa, menos há o que dizer; quanto mais a subjetividade é solicitada, mais o efeito é anônimo e vazio. Há uma prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário.

1. A sedução não pára

1 Para Lipovetsky, a sedução é o que regra o consumo, as organizações, informação, educação e cosumes. A cada dia menos cai por terra a primazia das relações de produção para entrar uma apoteose das relações de sedução.

Sedução à la carte

2 A sedução não se trata de uma superestrutura, de uma ideologia, mas sim de um espetáculo, que transforma o real em representação falsa.

O self-service e o atendimento à la carte designam o modelo geral da vida nas sociedades contemporâneas, 3 isto é, saem as atitudes autoritárias e entra a oportunidade de escolhas particulares. O processo sistemático de personalização altera os modos de produção aos poucos, ajustando-se à vida kit, ajustável às necessidades de cada um.

4 Riesman, em La foule solitaire, vai dizer que a cordialidade imposta e a personalização dos relacionamentos substitui o enquadramento funcional e mecânico da disciplina: 5 a sedução é particularizada.

Essa sedução está presente em diversos ramos da sociedade: nas terapias suaves, nos esportes livres da cronometragem, na cultura do feeling e da emancipação individual, no culto à espontaneidade, enfim, a linguagem torna-se o eco da sedução, 6 em um lifting semântico. Esse fenômeno é demonstrado pela frase: “Eu sou um ser humano. Não dobre, não estrague, não torça.”

A música é onipresente nesse processo: a sedução pós-moderna é hi-fi.

7 As performances técnicas da estereofonia, os sons elétricos, a cultura ao ritmo inaugurada pelo jazz e prolongada pelo rock permitiram que a música se tornasse esse meio privilegiado do nosso tempo porque está em consonância estreita com o novo perfil do indivíduo personalizado e narcisístico, que tem sede da imersão instantânea, sede de se “divertir” não apenas nos tirmos dos últimos sucessos mas também das mais diversas músicas, as mais sofisticadas que, no momento, estão constantemente à disposição de todos.

Em resumo, o autor diz: a sedução é a destruição fria do social por um processo de isolamento que se administra não mais pela força bruta ou o enquadramento regulamentar, mas, sim, pelo hedonismo, a informação e a responsabilização. 8 A ideologia do indivíduo livre, autônomo e semelhante aos demais não é nova, mas o processo de personalização é o seu cume, ele realiza o ideal moderno.

Os discretos charmes da política

A imagem dos políticos em “escala humana” não é um fenômeno causado apenas pela mídia, 9 é também resultado da emergência de novos valores, da cordialidade e da proximidade. A sedução é filha do individualismo hedonista e psi, bem mais do que o maquiavelismo político.
Há também um processo de descentralização, a partir do desengajamento do Estado e do surgimento de iniciativas locais. Isso traz uma democracia de contato e 10 uma busca maior pela identidade. Em alguns trechos, ele sintetiza a sedução praticada na política:

A sedução não funciona por meio do mistério; ela funciona por meio da informação, do feedback da iluminação sem trégua do social, como se fosse um strip-tease integral e generalizado.

11 (…) a sedução, a exemplo de Eros, opera por ligação, coesão e aproximação. A guerra de classes é substituída pela conquista por meio das estatísticas, pelo compromisso histórico e pela união do povo francês. Você quer me namorar? A Revolução fascina apenas por estar ao lado de Tânatos, da descontinuidade, da separação.

12 A sedução triste do marxismo vestiu a roupagem sóbria dos homens da “ciência”.

Sexdução

A pornografia refuta a ordem arcaica da Lei e do Proibido. Agora, tudo é permitido. A pornografia é agente de despadronização e de subjetivação do sexo e pelo sexo, da mesma forma que todos os movimentos de liberação sexual [page n=13] (…) desta maneira, produzimos um sujeito não mais pela disciplina, mas, sim, pela personalização do corpo sob a égide do sexo.

16 Don Juan está bem morto. Elevou-se uma nova figura muito mais inquietante: Narciso, subjugado por ele mesmo em sua cápsula de vidro.

2. A indiferença pura

A deserção em massa

17 Neste tempo em que as formas de aniquilação assumem dimensões planetárias, o deserto, fim e meio da civilização, designa essa figura trágica que a modernidade substitui à reflexão metafísicas sobre o nada.

18 Para Lipovetsky, em tempos pós-modernos, o deserto se alastra: aumenta o poder do negativo. A começar, os organismos são destivados:

a saber, o poder, o trabalho, o exército, a família, a Igreja, os partidos, etc. já pararam de funcionar globalmente com os princípios absolutos e intangíveis.

Apatia “new-look”

No entanto, o fenômeno não se trata de um niilismo “passivo”, é o niilismo da indiferença. 20 A descontração elimina a fixação ascética, trata-se de um repouso, de uma estética fria da exterioridade e da distância, mas não do distanciamento, a exemplo do hiper-realismo americano: as telas hiper-realistas não transmitem qualquer mensagem. 21 Hoje, pode-se viver apenas pelo prazer do espetáculo, sem finalidade e sentido, em seqüências instantâneas, e isto é uma novidade.

A queda da autoridade também marca o momento. A palavra do mestre deixou de ser sagrada, tornou-se banal e situa-se em pé de igualdade com a palavra da mídia. 22 A constestação se extinguiu, como se pode ver na abstenção em eleições. A indiferença é por excesso, e não por falta – nada mais espanta. 23 Tudo tem velocidade e efemeridade.

24 Não se trata de alienação no sentido marxista:

A alienação analisada por Marx, resultante da mecanização do trabalho, deu lugar a uma apatia induzida pelo campo vertiginoso das possibilidades e o self-service generalizado; então começou a indiferença pura, desembaraçadas da miséria e da “perda de realidade” do início da industrialização.

Indiferença operacional

25 A sociedade é regida pela atomização, pelo hiperinvestimento privado, no ego, e pela desmobilização do espaço público. O capitalismo encontra então, nessa indiferença generalizada uma condição ideal para sua experimentação: “por que não?”.

27 Maio de 68 foi a primeira revolução indiferente, sem finalidade e sem programa, uma revolução que faz parte do processo de personificação.

O “flip”

28 Atravessando sozinho o deserto, levando a si mesmo, sem qualquer apoio transcendental, o homem de hoje se caracteriza pela vulnerabilidade.

29 Tudo é um problema. A solidão se tornou um fato. Depois da deserção social dos valores e das instituições, é a relação com o Outro que, segndo a mesma lógica, sucumbe ao processo de desafeição.

30 No processo de personificação, é impossível viver o outro:

Não satisfeito em produzir o isolamento, o sistema engendra seu desejo, desejo impossível que, no instante em que é alcançado, revelase intolerável: o indivíduo quer ser só, sempre e cada vez mais só, ao mesmo tempo em que não suporta a si mesmo estando só. A esta altura o deserto já não tem mais princípio ou fim.

3. 21 Narciso ou a estratégia do vazio

Para Lipovetsky, Narciso é a lenda da vez para representar os problemas atuais. Narciso representa um individualismo que se desenvolve, desembaraçado dos últimos valores sociais e morais que ainda coexistiam com o reino glorioso do homo oeconomicus, da família, da revolução e da arte. O narcisismo inaugura a pós-modernidade, a última fase do homo aequalis.

Narciso sob medida

O narcisismo pós-moderno traz a desafeição no social, a neutralização e a banalização. 33 Tornou-se possível viver sem ideais, sem finalidades transcedentais, como visto nos filmes de Woody Allen. O homo politicus se transforma no homo psychologicus, que vive o presente e centra-se em si mesmo. O homem vive, de acordo com Lasch, uma “perda do sentido da continuidade histórica”.

A Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate acarretaram em uma crise de confiança na política. O futuro é ameaçador e o passado, desvalorizado: 34 trata-se de uma tanatocracia sem apocalipse, só com apatia e deserção, 35 sem tomada de consciência, focado no hedonismo.

O zumbi e o psi

O processo de personalização vive em um entusiasmo sem precedentes pelo conhecimento e realização de si mesmo, como demonstra a proliferação de organismos psi, técnicas de expressão e de comunicação, meditação e ginásticas orientais. A sensibilidade política dá lugar a uma sensibilidade terapêutica. É o self-examination:

38 Narciso obcecado por si mesmo não sonha, não é surpreendido pela narcose, mas sim, trabalha assumidamente pela libertação do Eu, para poder seguir seu grande destino de autonomia e independência: renunciar ao amor, “to love myself enough so that I do not need another to make me happy”.

O recalque se torna provocação e a autoconsciência tem mais valor que a consciência de classe. 37 Não há problema em viver em um deserto social, já que o Eu é central. No entanto, quanto mais se investe no Eu, quanto mais se faz dele o objeto de atenção e de interpretação, mais aumentam a incerteza e a interrogação (…) o Eu se tornou um “conjunto impreciso”.

38 Ocorre uma dessubstancialização, como na “fraqueza de vontade” em Nietzsche: a dispersão é maior que a concentração, coincide com a indiferença 39 , e não com a alienação. É a liquefação da identidade rígida do Eu e suspensão da primazia do olhar do Outro – em todos os casos o narcisismo funciona como agente do processo de personalização.

40 Com a fluidez do Eu, as categorias sociais não fazem mais sentido. 41 Com isso, o autoconhecimento é maior que o reconhecimento. Ao invés da divisão eu × outro, mas sim consciente × inconsciente.

42 O corpo reciclado

O narcisismo resulta do advento desse novo imaginário social do corpo. Segundo Lasch, isso se manifesta no medo de morrer e de envelhecer. Há também uma permanente necessidade de ser valorizado.

43 A dicotomia corpo-espírito se esfumou. De acordo com Sennet, estamos em uma “cultura da personalidade”, 44 com a condição de precisar que o próprio corpo se torna um indivíduo e, assim, deve ser colocado na órbita da libertação, por meio da revolução sexual, é claro, mas também estética, dietética, sanitária, etc. sob a égide de “modelos diretivos”, como no narcisismo dirigido de Baurdrillard. A normalização do corpo se dá pelo imperativo social. A norma dirigida e autoritária dá lugar à norma indicativa.

45 Um teatro discreto

Segundo Sennet, manifesta-se na pós-modernidade a condenação moral da impessoalidade. Tudo deve ser na primeira pessoa. Menos regras e mais relacionamentos fratricidas e associais. 46 O imediatismo e a proximidade dá lugar ao intimismo tirânico e “incivilizado”. 46 Mas as regras não acabam por completo, se renovam e transformam a pessoa em uma pessoa pacificada. Diz-se tudo, mas sem gritar.

47 A autenticidade é diferente da espontaneidade. O narcisismo se define menos pela explosão livre das emoções do que pelo recolhimento em si mesmo, ou seja, pela “discrição”, sinal e instrumento do self-control, sem exibição romântica.

Apocalypse now?

O sucesso, segundo Lasch, tem a finalidade de excitar admiração ou inveja. 49 É o estado natural de Hobbes no fim da história. 51 O novo reconhecimento não é competitivo.

52 24 mil watts

Um Sobre-eu duro e punitivo gera uma guerra interior:

O “desaparecimento” do pai, devido à freqüência dos divórcios, leva a criança a imaginar a mãe como castradora do pai: é nessas condições que os filhos alimentam o sonho de substituí-lo, de ser o falo, ganhando celebridade ou se juntando aos que representam o socuesso.

Nesse sentido, o Sobre-eu representa os imperativos de celebridade e sucesso. Valem mais os fãs do que a confiança dos pais. O narcisismo alimenta mais ódio do que admiração pelo Eu.

54 As celebridas estão humanizadas e os ambientes públicos aceleram a pulverização da sociedade.

55 O vazio

O neonarcisismo leva ao vazio sentimental: “se pelo menos eu pudesse sentir alguma coisa!” As perturbações narcisísticas do caráter não são mais fixas e de sintomas neuróticos. 57 Trata-se do the flight from feeling de Lasch: a dignidade em não demonstrar os sentimentos, a fuga dos sinais do sentimental.

58 Desolação de Narciso, muito bem programado em sua absorção em si mesmo para poder ser afetado pelo Outro, para sair de si mesmo e, no entanto, insuficientemente programado, uma vez que ainda deseja um relacionamento afetivo.

4. Modernismo e pós-modernismo

60 Caso se trate de pós-modernismo, ele deverá provocar uma onda profunda e geral na escala do todo social, uma vez que na verdade vivemos um tempo em que as oposições rígidas se esfumam, em que as preponderâncias se tornam fluidas, em que a inteligência do momento exige que se ressaltem correlações e homologias.

61 A cultura antinômica

O capitalismo foi dilacerado pelo modernismo, criou uma ruptura. O primeiro a detectar isso foi Baudelaire: o belo é inseparável da modernidade do contingente. Surge o ódio da tradição e obsessão pela renovação total.

O modernismo proíbe a estagnação, obriga a invenção ininterrupta, a fuga sempre para adiante, tal é a “contradição” imanente ao modernismo: “A modernidade é uma espécie de autodestruição criadora… a arte moderna não é apenas herdeira da era crítica, mas também a crítica de si mesma” [PAZ, O.]

De acordo com Adorno, trata-se menos de manifestos positivos, e mais uma negação.

62 O inédito tornou-se o imperativo categórico da liberdade artística, mas a vanguarda se esgotou, tornou-se repetição ritual. Nas nossas sociedades as mudanças técnico-econômicas não determinam mudanças culturais e o pós-modernismo não é reflexo da sociedade pós-industrial.

63 A cultura da personalidade, do Eu, houve desde Rousseau, mas só no modernismo gera revolta. Mas o hedonismo vem do capitalismo, e não da arte.

64 Na sociedade fragmentada, são três as ordens:

  • a técnico-econômica, da racionalidade funcional,
  • o regime político da igualdade dos meios e dos resultados, e
  • a cultura do hedonismo

65 Modernismo e valores democráticos

De acordo com Bell:

De um lado, a arte moderna – definida como expressão do eu e revolta contra todos os estilos reinantes – é antinômica em relação às regras cardinais da sociedade, a eficiência e a igualdade. De outro lado, justamente por essa discordância, é inútil querer dar conta da natureza do modernismo em termos de reflexo social ou econômico.

O pensamento de Lipovetsky sobre o modernismo pode ser sintetizado a partir dos seguintes trechos:

66 O modernismo não é mais do que uma face do vasto processo secular que conduz ao surgimento das sociedades democráticas baseadas na soberania do indivíduo e do povo, sociedades liberadas da submissão aos deuses, das hierarquias hereditárias e do domínio da tradição (…) ordem autônoma que tem o indivíduo livre como fundamento.

67 O modernismo: vetor da individualização e da circulação contínua da cultura, instrumento de exploração de novos materiais, de novos significados e novas combinações.

Isso se mostra na pintura, sem modelos privilegiados. 68 As obras são dessublimadas, não no sentido de Marcuse, mas sim de assimilação e banalização, 69 como na música de John Cage.

70 O modernismo é a importação do modelo revolucionário para a esfera artística. É por isso que nnao se pode concordar com as análises de Adorno, que vê no modernismo um processo “abstrato”, análogo à lógica do sistema de valor de troca generalizado no estágio do grande capitalismo. (…) O modernismo não é uma reprodução da ordem da mercadoria.

Segundo Bell, é antiburguesa. 71 Além disso, não tem a ver com as novas tecnologias e conhecimentos das época (Freud e Einstein).

74 Entre outras características do modernismo, estão a instituição de um mercado artístico e 75 a convergência de liberdade, igualdade e revolução.

Modernismo e cultura aberta

76 O modernismo mergulha o espectador em um universo de sensações, de tensões e de desorientaçnao, de emoção e de estímulo constantes. 77 Mas não é uma confissão. 79 A obra é aberta, inacabada, repleta de humor e ironia. 80 O observador é cocriador, na indeterminação, ambiguidade e estética “não-diretiva” das obras. 82 A psicanálise desestabiliza as posições rígidas.

Consumismo e hedonismo: rumo à sociedade pós-moderna

83 Hoje em dia a vanguarda perdeu sua virtude provocadora, deixou de existir a tensão entre os artistas inovadores e o público porque mais ninguém defende a ordem e a tradição.

O pós-modernismo trata-se de uma cultura de massa hedonista e psicodélica que é revolucionária apenas aparentemente, “na verdade, era simplesmente uma extensão do hedonismo da década de 1950 e uma democratização da libertinagem que certas frações da alta sociedade já praticavam há muito tempo”.

[page n=86]O consumo de massa é agora regido pela personalização. [page n=87]O do it yourself e o self-care são na verdade uma forma de self-service, em meio a essa profusão de informação.

[page n=88]A era do consumismo “dessocializa” os indivíduos e correlativamente os socializa pela lógica das necessidades e da informação; trata-se, entretanto, de uma socialização sem conteúdo pesado, de uma socialização com mobilidade.

[page n=90]Se o moderno tinha uma ordem disciplinar e autoritária, o pós-moderno chega com o seu desencantamento. [page n=92]A liberdade agora é tão ou mais importante quanto a igualdade. [page=94]Surge um hedonismo cool, de retorno ao sagrado e de anti-razão.

Enfraquecimento da vanguarda

[page n=96]O pós-modernismo é um [cit]outro nome para designar a decadiencia moral e estética do nosso tempo. 97 Existe mais experimentação na técnica e na publicidade que nas vanguardas. 98 Pós-modernismo no sentido de que não se trata mais de criar um novo estilo, mas, sim, de integrar todos os estilos, inclusive os mais modernos.

99 O pós-modernismo vem resolver o antagonismo inclusão e exclusão: 101 se antes era preciso ser absolutamente moderno, agora é preciso ser absolutamente si mesmo.

Crise da democracia?

102 Na briga entre hedonismo e capitalismo, 104 há uma perda da civitas.

106 A legitimação contemporânea da era disciplinar cedeu lugar a um consenso existencial e tolerante, a democracia se tornou uma segunda natureza, uma ambiiencia, um meio ambiente.

5. A sociedade humorística

111 Lipovetsky inicia o capítulo falando do fenômeno de dramatização suscitado pela mídia de massa, representado pelo clima de crise, insegurança urbana e planetária, escândalos, catástrofes, entrevistas dilacerantes, que resume todo a que chamamos de sensacionalismo. Para ele, paralelamente a isso, surge um movimento inédito, não muito notado: o desenvolvimento generalizado do código humorístico. Esse fenômeno aparece não só em linguagens próprias do humor, como os quadrinhos, mas também nas manchetes, nos artigos científicos e na arte (como o surrealismo, Duchamp, por exemplo). 112 A força do humor, para ele, vem da descrença pós-moderna: o neoniilismo que toma corpo não é nem ateu nem mortífero: é a partir de agora humorístico.

Do cômico grotesco ao humor pop

O riso acompanha o homem em diversos momentos históricos e nas mais variadas populações, mas somente a sociedade pós moderna pode ser classificada como humorística, porque dissolve a oposição entre o sério e o não-sério.

O autor divide o cômico em três grandes fases históricas identificadas por ele a partir da Idade Média, 113 quando o cômico se encontrava ligado a festas e divertimentos do tipo carnavalesco, que chegavam a ocupar um total de três meses por ano. Era o que Lipovetsky chama de realismo grotesco: com base no princípio de rebaixamento do sublime, do poder e do sagrado por meio de imagens hipertrofiadas da vida material e corporal. Ou seja, uma espécie de caricatura do que era considerado sagrado e superior, virando a hierarquia do avesso. 114 Essa inversão seria uma simbologia da morte, que prepara para um novo nascimento. O cômico medieval é “ambivalente”: trata-se de dar a morte (rebaixar, ridicularizar, injuriar, blasfemar) para insuflar uma nova juventude e, assim, dar início à renovação.

Na idade clássica, o riso reduz-se ao espírito, à ironia: ele deixa de ser simbólico e passa a ser crítico, na forma de comédia, sátira, fábula e vaudevilles. Ele se dessocializa, perde a característica pública e coletiva, torna-se “civilizado” e se disciplina: saem o excesso e exuberância do riso e entra um comportamento desprezado e vil.

115 Na era atual, o tom dominante do cômico sai do satírico para entrar no lúdico. O humor na publicidade ou na moda não tem vítima, não zomba, não critica, limitando-se apenas a prodigalizar uma atmosfera eufórica de bom humor e de felicidade sem avesso. Não tem amargura, não quer mascarar um pessimismo nem deseja ser profundo. Hoje em dia o cômico é bizarro e hiperbólico (…) provocante, tônico e psicodélico. 116 O novo herói que surge não é mais levado a sério.

117 Há além desse humor de massa eufórico e convivial, um outro, mais underground, vagamente provocador, beira o vulgar, mas não se confunde com o humor negro. Mistura violência e sexo de forma crua.

118 Mas nenhuma das vertentes utiliza a grosseria e a ridicularização. O tempo não é mais aquele em que todos nós ríamos invariavelmente das mesmas piadas. Hoje o humor exige o espontâneo, o “natural”.

Se ainda existe quem se fantasia nas ruas, a característica pós-moderna consiste na descontração, da rejeição ao ridículo, este visto como uma rigidez que o pós-modernismo não mais tolera. O efeito agora é narcísico, de diferenciação.

Pouco a pouco, tudo o que tem um componente agressivo perde sua capacidade de provocar o riso. 119 Trata-se da suavização de costumes de que falava Tocqueville. Os trotes se amenizam, o martírio de animais se extingue, o outro deixa de ser o alvo – o novo alvo é o eu, como mostram os filmes de Woody Allen.

120 Num paradoxo, nesta mesma sociedade humorística tem início a fase da liquidação do riso, devido 121 ao tom cool e apático do indivíduo-zumbi do processo de personalização pós-moderno. É paralelo a indiferença, desmotivação e progressão do vazio existencial: reflexo da mesma auto-absorção narcísica, não á mais a necessidade de manifestar o riso. É uma coisa bem diferente de uma discrição civilizada que é preciso reconhecer na atrofia contemporânea do riso; na verdade, é a capacidade de rir que se encontra atrofiada, assim como o hedonismo instaurou um enfraquecimento da vontade.

Metapublicidade

Na publicidade o fenômeno humorístico se revela mais evidentemente, 122 num tom vazio, leve e que beira o nonsense. No entanto, nem tudo é permitido, a extravagância deve servir no fim para valorizar a imagem do produto. Essa recusa à seriedade tira os motivos de pensar na publicidade como algo doutrinador: sai a lógica pedagógica e entra a humorística, mais atrativa para ser ouvida.

Esse humor mostra o vazio publicitário, exemplificado pelo autor nas expressões não é narrativa nem mensagem, desarma o nonsense trágico e um vago surrealismo. 123 E também não é ideologia:

Enquanto a ideologia visa o Universal e diz a Verdade, o humor publicitário está além do verdadeiro e do falso, além dos grandes significados, além das oposições diferenciadoras. O código humorístico mina a pretensão ao sentido, destitui os conteúdos: no lugar da transmissão ideológica temos o enfraquecimento humorístico, a reabsorção do pólo referencial. A glorificação do sentido foi substituída por uma depreciação lúdica, uma lógica do inverossímil.

Por ser leve, antes mesmo de querer convencer, a publicidade é publicidade em si mesmo, é metapublicitária. Não quer ocultar o real, nem iludir, nem desconstruir. Utiliza um discurso clássico e claro de entender. Mas esse humor não trabalha com o conceito clássico de sedução, pois mantém uma distância, porque o espectador não se liga à mensagem, cria um distanciamento que a arte moderna também realizou. 124 O código humorístico é mais uma das figuras do processo de destituição da ilusão e de autonomização do social. E quando a publicidade passa a se mostrar como publicidade, não faz mais do que se inscrever no trabalho já longínquo da emergência de uma sociedade sem opacidade e sem profundidade, uma sociedade transparente para si mesma e cínica, apesar de seu humor cordial. O distanciamento do humor requer pelo menos que o receptor tenha alguma atividade psíquica, em uma época do fim das formas pesadas de manipulação.

125 A moda: uma paródia lúdica

Estampas divertidas, broches, penteados: a era humorística predomina sobre a era estética. Se a moda feminina “liberta” a aparência da mulher desde a década de 20, só na de 60 se liberta da elegância discreta. E agora, tanto para os homens como para as mulheres, se instalou a cultura da imaginação, com o humor sendo um de seus valores. O look é personalizado e relax, é hipernarcísico. O rétro surge apenas como referência, não mais como cópia fiel de um estilo passado, uma espécie de paródia. Se o modernismo foi baseado [page n=127] na aventura e na exploração, o pós-modernismo repousa sobre a reconquista, a autorepresentação, humorística no que concerne aos sistemas sociais, narcísica em relação aos sistemas psíquicos.

A utilização de peças ligadas ao trabalho ou a outros contextos (saia de bailarina, uniforme de Mao) perdem seu significado original e ressurgem como o frívolo se identifica com o sério e o funcional, num estilo paródico que suaviza as referências. 128 Os signos estão desconectados do seu significado, do seu uso, da sua função e do seu apoio, de modo que resta apenas um jogo paródico, um conjunto paradoxal em que as roupas humorizam a escrita e a escrita humoriza as roupas. Até mesmo o fora de moda faz rir.

129 Como a publicidade, a moda não diz nada, é uma estrutura vazia; por isso também nos enganamos ao ver nela uma forma moderna de mito. O imperativo da moda é o mudar simplesmente por mudar, em um processo de desclassificação constante das formas. Ela não só inova, como parodia a mudança, simulando a cada estação a novidade fundamental.

Processo humorístico e sociedade hedonista

130 Lado alegre do processo de personalização, o fenomeno humorístico tal como aparece em nossos dias é inseparável da era do consumismo. Com mensagens alegres que proporcionam a todo momento um prêmio de satisfação direta, o código humorístico é o complemento, o “aroma espiritual” do hedonismo de massa, mas não como um metro instrumento que estimule o consumo, o humor veio antes.

131 Esse humor não é mais elegante, traz gírias da rua, traz o desejo de viver livre imediatamente, graças ao ideal inflacionário de liberdade invidividual nas sociedades personalizadas. 132 Não tem a atitude da ironia, mesmo que de modo fingido: “rimos com ele e não dele”. Assim como hove a suavização dos castigos, houve a suavização do humor. O humor desempenha essa função democrática dupla: permite ao indivíduo libertar-se, mesmo que pontualmente, do amplexo do destino, das evidências, das convenções, de afirmar com tranqüilidade sua liberdade de espírito e, ao mesmo tempo, impede que seu ego se leve a sério, que crie uma imagem “superior” ou altiva, que se manifeste sem controle de si mesmo, impulsiva ou brutalmente. O humor pacifica o relacionamento entre as pessoas, anula as causas de atritos mantendo a exigência da originalidade individual. 133 O humor cria um clima relax, descontraído; é uma função fática.

134 O humor personalizado é narcísico, é tanto uma tela protetora do indivíduo quanto um meio cool de entrar em cena.

135  Destino humorístico e era “pós-igualitária”

Entra-se em uma era democrática pós-moderna que se identifica com a dessubstancialização humorística dos critérios sociais maiores. A representação dos políticos tornou-se humorística.  136 Instrumento de autonomização dos sistemas e aparelhos, neste caso políticos, o processo humorístico em si mesmo entrou na sua fase de autonomia: nos nossos dias a representação humorística bloqueia os setores mais “graves”, desdobra-se de acordo com uma necessidade descontrolada, independentemente das intenções e finalidades dos atores históricos. Ela se tornou um destino. Quando o político não tem mais eminência e se personaliza, não é de espantar que um artista do teatro de variedades consiga reunir uma percentagem notável de intenção de votos destinada inicialmente aos líderes políticos, esses cômicos de segunda classe: pelo menos a gente iria “rir de verdade”.

137 A arte também não é mais séria: ela perdeu seu status transcedental.

Fragmentação dos particularismos e a escalada minoritária das organizações e associações: a reivindicação social também é humorística. Diferenciações microscópicas.

138 Reflexo da personalização: “o outro é como um teatro do absurdo”. Se a originalidade não mais provoca, é a estranheza que conquista. 139 O outro é um gadget maluco.

140 Uma nova fase da revolução democrática, a era pós-igualitária. Igualdade “ideológica” e heterogeneidade psicológica.

Microtecnologia e sexo pornô

141 A miniaturização da tecnologia tem um quê de humorístico. A tecnologia se tornou pornô: objeto e sexo entraram no mesmo ciclo

Narcisismo enlatado

142 Aumenta a procura por esportes individuais, ainda mais o que não incitam a competitividade (jogging, bicicleta, esqui etc.), ou seja, busca-se menos a proeza e o reconhecimento para se dar mais valor à forma física e a elegância dos movimentos. O esporte também se descontrai.

143 Nas casas noturnas, o clima confesso de sedução é substituído por uma “hiperteatralização” que esvazia o lugar de seriedade (o Le Palace). 144 “em sua ação inexorável, o processo humorístico não poupou nem os lugares da cultura nem os lugares da noite”.

144 6. Violências selvagens, violências modernas

145 Honra e vingança: violências selvagens

Honra e vingança orientaram a violência humana no decorrer da história. 146 A honra e a vingança exprimem diretamente a prioridade do conjunto coletivo sobre o agente individual. Aonde predomina a honra, a vida tem valor baixo comparado com a estima pública. Esse código educa os homens a se afirmarem pela força, é uma lógica social e um estimulante social.

147 A vingança é um imperativo social, independente dos sentimentos dos indivíduos e dos grupos (…) a exigência de que em nenhum lugar possa se estabelecer duravelmente um excesso ou uma falta. 150 Ela não necessariamente substitui a justiça nas sociedades consideradas primitivas, como defende M.R. Davie. A vingança é um dispositivo que socializa pela violência. Ao mesmo tempo, o código da vingança é empregado para impedir o surgimento do indivíduo independente, voltado para seu próprio interesse.  A guerra, nesse contexto, é um imperativo.

156 Regime da barbárie

Com o advento do Esado, a guerra muda radicalmente de função, uma vez que deixa de ser, como na ordem primitiva, um instrumento de equilíbrio ou de conservadorismo social para se tornar um meio de conquista, de expansão ou de captura. Segue agora uma ordem territorial, uma violência conquistadora, e passa por um processo de especialização, isto é formação de exércitos e 157 definição de uma casta militar. 158 De ritual sagrado que era, a crueldade se tornou uma prática bárbara, uma demonstração ostentatória de força, um divertimento público.

160 O processo de civilização

Desde o século XVIII, o Ocidente é comandado por um processo de civilização ou suavização de costumes, do qual somos herdeiros. 161 A impulsividade extrema e desenfreada dos homens, correlativa das sociedades que precedem o Estado absolutista, foi substituída por uma regulamentação de comportamentos, pelo “autocontrole” do indivíduo, enfim, pelo processo de civilização que acompanha a pacificação do território relaizada pelo Estado moderno.

163 Esse lado mais individual das sociedades modernas 164 tira o status de vergonhoso de não revidar a ofensa, as relações são regidas pelo signo da indiferença. O código de honra cedeu espaço ao código pacífico da “respeitabilidade”.

165 No entanto, este processo de civilização não deve ser confundido com a revolução democrática. 166 A civilização dos comportamentos não vem com a igualdade, ela vem com a atomização social, com a emergência de novos valores que privilegiam a relação com as coisas e a desafeição concomitante em relação aos códigos da honra e da vingança.

161 A escalada da pacificação

162 A era do consumo acentua a pacificação dos comportamentos, principalmente faz diminuir a freqüência das rixas e das agressões físicas, pelo hedonismo das sociedades que impulsionam o bem-estar e a autorrealização. 163 Esse é o paradoxo da relação interpessoal na sociedade narcísica: cada vez menos interesse e atenção para com o outro, cada vez maior, entretanto, o desejo de se comunicar, de não ser agressivo, de compreender os demais. 171 A violência verbal perdeu a substância, agora é hard (sem finalidade ou sentido, é impulsiva e dessocializada).

172 O processo de personalização atenuou comportamentos masculinos violentos e 173 diminuiu a brutalidade contra animais. 174 Mesmo assim, o sentimento de insegurança cresce:

A insegurança atual não é uma ideologia, é o correlato inevitável de um indivíduo desestabilizado e desarmado amplificando todos os riscos, obcecado por seus problemas pessoais, exasperado por um sistema repressivo julgado inativo ou clemente “demais”, habituado a ser protegido e traumatizado por uma violência da qual ignora tudo: a insegurança cotidiana resume sob uma forma angustiada a dessubstancialização pós-moderna.

174 Quanto mais a violência regride na sociedade, mais exacerbada é sua representação no conema, no teatro.

175 Crimes e suicídios: violências hard

176 Se o processo de personalização suaviza os costumes da maioria, inversamente ele endurece as condutas criminosas dos marginalizados, favorece o surgimento de ações bárbaras, estimula a escalada aos extremos no uso da violência. 177 O mundo hard é jovem e atinge em primeira linha os desarraigados culturais, as minorias raciais, imigrantes e jovens de famílias de imigrantes. Não se trata de inferiorização, mas sim de uma desorganização sistemática da sua identidade e uma desorientação violenta do ego suscitada pelo estímulo de modelos individualistas eufóricos, que convidam a viver intensamente. 179 A violência hard, desesperada, sem projeto, sem consistência, é a imagem de um tempo sem futuro que valoriza o “tudo, agora”; longe de ser antinômica com a ordem cool e narcísica ela é a sua expressão exasperada: mesma indiferença e mesma dessubstancialização, o que se ganhou em individualismo se perdeu em “profissão”, em ambição, em sangue-frio e também no próprio controle.

181 O suicídio se tornou menos sangrento e doloroso: intoxicação por remédios e gás são as técnicas mais utilizadas. No entanto, a tentativa de suicídio tem levado a menos mortes que antigamente, por serem os suicidas mais jovens e a medicina mais avançada. O processo de personalização agencia um tipo de personalidade cada vez menos capaz de enfrentar a prova do real: a fragilidade e a vulnerabilidade aumentam, principalmente entre a juventude, categoria social mais deficiente em referências e estabilidade social. 182 Parte disso vem da educação menos autoritária e estável. Sua popularização o torna mais banalizado. Ele perde o radicalismo, é um trânsito instantâneo entre o desejo de morrer e de viver. O desejo de morte é também uma das faces do neonarcisismo, da desestruturação do Eu. O indivíduo pós-moderno tenta se matar sem querer morrer.

183 Individualismo e revolução

A violência das massas se torna um princípio útil e necessário ao funcionamento, ao crescimento das sociedades modernas, uma vez que as lutas de classes permitiram, indiscutivelmente, que o capitalismo ultrapassasse suas crises e reabsorvesse seu desequilíbrio crônico entre produção e consumo. A revolução só ocorre quando os homens são atomizados e desvinculados de solidariedades tradicionais. As instituições perdem a era sagrada quando o indivíduo considera-se e é considerado finalidade última. 185 A violência parte da sociedade e é contra o Estado, é o Terror, como representação democrática.

No entanto, nos dias atuais, a ideologia da luta de classes está sendo abolida, 186 até mesmo essa ideologia é motivo de desafeto pelo indivíduo. Maio de 1968 teve tanto de revolução como teve de happening, foi uma revolucão sem revolução. 187 Maio de 1968, já se disse isso, tem dupla face: uma moderna, por seu imaginário da revolução, e outra pós-moderna, por seu imaginário do desejo e da comunicação mas também por seu caráter imprevisível ou selvagem, modelo provável das violências sociais que estão por vir. A violência tende a acelerar o vazio pósmoderno.

189 Posfácio (1993)

No posfácio, escrito dez anos após a primeira publicação do livro, Lipovetsky sintetiza todas as teorias do livro e as confirma em acontecimentos mais recentes.